quarta-feira, 8 de junho de 2011

O indivíduo e a solidão em Anna Muylaert

Recentemente, assistindo à pequena grande obra que é “É proibido fumar”, de Anna Muylaert, não pude deixar de observar certos pontos de convergência que aproximam esse filme de sua película anterior, “Durval Discos”. Focarei dois eixos que já denunciam características estéticas recorrentes em sua obra: a solidão (proveniente de escolhas atípicas com a voragem da vida urbana) e certas tintas de incorreção política (como ilustração exata desse deslocamento do comum). 
Recordo que um dos grandes chamarizes de “Durval Discos” à época de seu lançamento foi a identificação que a narrativa sobre um dono de uma loja de LPs, em plena época digital, detinha sobre os que, como o personagem, vivem (mesmo supostamente) à margem dos fluxos mais genéricos do mundo contemporâneo. Impossível para os ditos outsiders, indies, hippies, etc, não se reconhecerem na imagem melancólica do homem que puxa um LP do Skank para um freguês quando este busca material digital da banda. O desprezo do cliente pelo acetato e a posterior imagem em pequeno-angular de Durval, silenciosa, atinge esse mesmo público (supostamente alvo) com o poder de uma facada. Como se a sensação de não-pertencimento sofrida pelo personagem se explicitasse (quando tentamos mantê-la eclipsada) de maneira abrupta, e esfregasse em nossas caras a conseqüência de escolhas que, ao mesmo tempo em que intensificam a auto-suficiência e liberdade alcançadas, também projetam sobre nós uma amarga sensação de obsolescência, de artigo em desuso (e daí a leitura: nossa suposta “vitória libertária” ser apenas corolária de uma falta de interesse do mundo em nos manter atado a ele). Temos aqui, pois, uma espécie de anti-“Alto-fidelidade” (já que neste, o mundo dos outsiders é visto com frescor pop, e nos faz querer ser iguais a eles).
Não me deterei a aspectos narrativos, mas o que se vê no desencadear da solitária vida de Durval é um compêndio de fatos corriqueiros (mãe doente, namorada sem grandes perspectivas, tédio, dureza) ganhando tintas que beiram o surrealismo, exatamente como proposta de extremo-oposto do comum e a tragédia nonsense (a mãe assassinando a namorada de Durval em um ato tão banal quanto abrupto), como se a própria realidade daquele personagem, de tão deslocada dos trâmites de certo “estar em sociedade”, não admitisse mais a própria ponderação dos fatos, ou da razão. A brilhante atuação de Ary França situa o personagem em um estágio limítrofe de inconsistência apreensiva dos fatos, como a indefinição que por vezes temos se sonhamos com algo ou se aquilo ocorreu. Em certo ponto, a própria loja de discos se torna uma espécie de nódoa, uma sujeira, que precisa ser expurgada do mundo como em um ato de higiene. Ao final, assistindo à destruição daquele prédio antigo, que abrigava tanto a loja quanto a casa de Durval e sua mãe, não sabemos se sentimos tristeza ou alívio.
“É proibido fumar”, por sua vez, traz (novamente) uma equívoca primeira impressão de leveza à Guel Arraes, principalmente ao observarmos título (que nos recorre imediatamente ao hit pop de Roberto Carlos), a imagem do casal maduro (que nos remete às infinitas “comédias da vida privada” e seus êmulos), o excesso de internas, a trilha sonora, etc. Mais uma vez Muylaert nos engana (positivamente) com o apelo da camada de superfície da obra e nos expõe pequenas células (até deterministas) do caráter transitivo de pessoas que optaram pelo caminho à margem. Se não possui a  plasticidade de “Durval” em seus entornos, seu realismo cru a liberta das reviravoltas clichê que tendem a redimir certo mau-caratismo dos protagonistas. Vejamos: Baby é uma professora de violão que possui tempo suficiente para se preocupar tormentosamente com a herança de um sofá, para chorar à lembrança de um bolo em forma de coelho de sua infância, para defender unilateralmente a supremacia da obra de Chico Buarque (no filme, comparada à de Jorge Ben); sua vida é silenciosa, bairrista, em contraponto à da irmã (em participação magistral de Marisa Orth), uma yuppie dinâmica e que não tem tempo a perder com questões tão caseiras, tão artesanais. Mas não há defesas ideológicas de certo hippismo temporão aqui (como em “Durval”);
a índole alternativa da protagonista concebe marcas de amoralidade (provenientes de uma vida isolada) que se intensificam na medida em que a personagem vai percebendo que aquela é uma chance possivelmente única (de vida a dois, complementada com Max, um músico de bar meio looser  que compartilha de similar perspectiva de vida com Baby) oferecida a ela. Em dada altura, Baby sem querer atropela a ex-esposa de Max e a mata. Seus dilemas (revelados ao fim) estão longe de pertencer ao âmbito da culpa, da condescendência. Ela simplesmente não quer que Max descubra o fato, e, com isso, finde seu relacionamento. Seu desespero individualista vem à tona, em um ato final tão humano quanto crível, que nos machuca exatamente por nos reconhecermos naquela figura isolada.
Com essas obras a diretora-autora nos oferece dois ensaios precisos (e preciosos) das conseqüências psíquico-sociais do indivíduo que estreita suas opções de vida única e exclusivamente em prol de suas perspectivas mais unidirecionais.
Busquei nessa comparação observar um aspecto fundamental dessas duas obras: a dualidade existente entre o indivíduo e a sociedade e as exigências de adaptabilidade desta como condição única de possibilidade de acolhimento.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Querem acabar contigo, Karine Alexandrino!

  Pense em todos os termos que você está cansado de ouvir quando se trata de analisar o trabalho de um músico-compositor atual que foge de certos esquemões radiofônicos: “ruptura”, “iconoclastia”, “miscelânea”, “desconstrução”, “reinvenção”, etc.
  Pense em todos os artistas aceitos pela dita intelligetzia que adora essa faceta cool-hype-etérea da música; artistas esses que optam por um olhar de mundo que busca constantemente se explicar através de referências tropicalistas, setentistas; de low profile cansado (em que até o suposto “descompromisso” é algo minuciosamente burilado, vide algumas entrevistas de artistas tidos pela intelligentzia como neo-outsiders tentando emular a simplicidade outrora legítima de um Dorival Caymmi, posando de bermudinha, barba por fazer e sorriso de “manhã de domingo preguiçosa”) deixando de lado a visceralidade, o elemento fenomenológico, sanguíneo (o homem participante das experiências no mundo, e não mero observador dos participantes de tais experiências, como o “roqueiro” Caetano de “Cê”).
  Em suma: pensemos em legitimidade (ou falta de).
  Karine Alexandrino lançou seu “Querem acabar comigo, Roberto” há cinco anos. Um álbum ouvido por poucos e compreendido por menos ainda; não há aqui as tradicionais emulações (tropicália, Gal, 70’s, bossa-nova, sambinha, macumbelês) nem a pedante postura indie de quem afirma coisas como “Claudinho e Buchecha são dois pássaros em cântico uníssono com o povo, ou Chimbinha é a síntese da mescla do...” ah, toda essa pasmaceira.
   Começo pela voz, que possui uma estética própria, sem nenhum referencial (explícito) anterior. A música causa grande estranheza mas não se sabota, ainda quer fazer suar, chorar, identificar, emocionar, arrepiar, etc. O cool aqui não entra (daí o Robertão do título); a balada beatle “Mulher Ioiô”, que abre o álbum, é tudo, menos êmulo de 60’s; é algo novo, cujo suposto antecedente mais aponta para o futuro que para o passado. “Kiss Kiss Kiss”, da Yoko, poderia ser só mais um “resgate pitoresco de artistas de quem menos se espera”, como tantos outros fazem, mas é um cruzamento (desculpe, me rendi a um daqueles termos) originalíssimo de Ennio Morricone e música brega; “Amor e glória é só boato” tem uma das introduções mais geniais e lindas já cometidas em nossa música (um sintetizador que parece um Kraftwerk pop, oitentista, que, por si, vale a canção – bela, por sinal); a regravação de “Dio come ti amo”, que cheira a prostíbulo dos anos 70; o dance “Loca pos ti”, descaradamente dançante, etc. Não, não há por aqui produção de Kassin, Domenico, e participações de Tulipa Ruiz e Céu: isso seria a perpetuação de tudo o que foi dito no início do texto.
  Um álbum para poucos (e, repito: que não negligencia a vitalidade da música), de uma artista que nunca encontrará o retorno da massa, porque, além de inclassificável, não busca a “inclassificação” como um rótulo para seu trabalho. 
 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Minha ideia de Arte

Já dizia Nietzsche que a arte deve sublimar o homem. Deve pô-lo em uma categoria que o amplifique, que saia da lógica das considerações funcionais e cansativas do cotidiano, que o arrebate e o abra ao devir. Parto, então, do princípio de que a arte é, fundamentalmente, estésica, instintiva, primal e prescinde de modelos e categorias (por mais que se compartimente em facções ditas inferiores, superiores e até isentas de um suposto merecimento de serem rotuladas como artísticas). Tipo: "Stallone? É qualquer coisa, mas arte não!"
Mas se arte, de acordo com nosso conceito, é exatamente essa capacidade de a obra transubstanciar-nos pela exposição furiosa de nossos instintos (intelectualidade não conta aqui), e se esses são o que de mais humano, demasiadamente humano, reside em nós (por mais que o negligenciemos), como civilizá-los através de convenções que mais nos conduzem a aceitar aquilo que está previamente moldado e aceito pela dita alta cultura, quando, por sua vez, o filme do Stallone pode nos proporcionar tal sublimação? Sendo assim, a arte é um conceito volátil, passível de distintos estágios psicológicos, não uma consideração estanque e totêmica.
Amigo leitor, esse blog também está suscetível a essas mudanças de estágios (como tudo está) e não negligenciará seus desejos (hoje quis redigir esse texto em tons mais sóbrios, menos relaxados, mas posso perfeitamente mudar o rumo de minha linguagem e supostamente descaracterizá-la ou, dependendo do grau de subserviência acadêmica do quem o lê, enfeiá-la).
Música, cinema e literatura são os campos de abordagem analítica por excelência, mas o transbordamento é aqui visto como prova de saúde: por que não futebol? Ou sexo? Ou quadrinhos? Ou Matemática?
Afinal, arte é principalmente tesão. E tesão a gente não controla, não?
Abraços!